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	<title>Passeio Público</title>
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	<description>Caixa Cultural apresenta uma exposição imersiva e multifacetada</description>
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	<title>Passeio Público</title>
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		<title>O inconsciente é o Passeio Público das 15h às 17h</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/o-inconsciente-e-o-passeio-publico-das-15h-as-17h/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[André Abu-Merhy]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2023 10:32:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios colaborativos]]></category>
		<category><![CDATA[André Abu-Merhy]]></category>
		<category><![CDATA[Eloá Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[Lacan]]></category>
		<category><![CDATA[Mano Penalva]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
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					<description><![CDATA[Freud disse que o inconsciente é uma cidade que se mostra na dobra entre ruínas arqueológicas – que indicariam as impressões de uma civilização soterrada e a superfície. Para ele,...]]></description>
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<p>Freud disse que o inconsciente é uma cidade que se mostra na dobra entre ruínas arqueológicas – que indicariam as impressões de uma civilização soterrada e a superfície. Para ele, aquilo que está enterrado se comunica na contingência, nas entrelinhas: uma maneira de dizer que o que foi soterrado, esquecido, recalcado, jamais irá perecer. Está preservado de alguma maneira e pretende retornar, ser “trazido de volta à luz”. Seu grande exemplo é Roma, tanto na <em>Interpretação dos sonhos</em> (1900),&nbsp; quanto em <em>O mal-estar na civilização</em> (1930). Acompanhando a posição&nbsp; de outros pensadores, tais como o historiador da arte suíço Jacob Burckhardt (1818-1897) e o antropólogo, também suíço, J. J. Bachofen (1815-1887), Freud diz que as ruínas, isso que está soterrado, seriam como um texto que indica, nas margens e sutilezas dos pequenos ditos, a presença da cidade desaparecida.&nbsp;</p>



<p>Em <em>Delírios e sonhos na gradiva de Jensen </em>(1906), Freud recorre a uma obra literária do escritor e poeta alemão Wilhelm Jensen para a aproximar a ação do Vesúvio na cidade italiana de Pompeia com o conceito de recalque (<em>Verdrängung</em>). A cidade e toda a população soterrada ganhariam vida ao meio-dia, disse o poeta. O arqueólogo Hanold, herói do conto de Jensen, desvela aquilo que se apagou sob as lavas do vulcão. Freud escreve uma carta a Jensen dizendo que somente ele, o artista, havia compreendido através de seu texto aquilo que toda a comunidade médica a que ele se dirigia exaustivamente não fora capaz de entender: o mecanismo do recalque; a estrutura do inconsciente em seu aspecto topológico e dinâmico; e a função do analista.&nbsp;</p>



<h5 class="wp-block-heading">Duas cidades históricas italianas até Baltimore</h5>



<p>Anos depois, Lacan no seu esforço de retomar Freud ao pé da letra, na ocasião de uma conferência nos EUA na década de 1960, diz:</p>



<p>“Preparei esta palestra nas primeiras horas de uma manhã. Pela janela, eu via Baltimore, e era um momento muito interessante. Ainda não havia amanhecido inteiramente. Um anúncio luminoso me indicava as horas minuto a minuto e, naturalmente, havia intenso tráfego. Disse a mim mesmo que tudo o que eu podia ver, exceto algumas árvores ao longe, resultava de pensamentos, pensamentos ativamente pensantes, nos quais não era totalmente óbvia a função desempenhada pelos sujeitos [&#8230;] A melhor imagem para representar o inconsciente é Baltimore ao amanhecer. Onde está o sujeito? É preciso achá-lo, como se fora um objeto perdido”.</p>



<p>O inconsciente freudiano é aquilo sobre o que sabe-se muito pouco, de que não se faz possível representação. Portanto, o inconsciente está sempre a ser definido, pois não se sabe bem o que é. O psicanalista Éric Laurent, em seu texto <em>Cidades analíticas</em>, afirma que&nbsp; Lacan conseguiu transmitir a estranheza do inconsciente ao defini-lo como “Baltimore ao amanhecer”, pois em uma frase simples ele indica um lugar – uma cidade sem profundidade histórica, mas o lugar onde seu público estaria reunido, um lugar com estrutura de cidade e com uma indicação temporal: o amanhecer. Laurent diz que cada um desses elementos deve ser tomado em sua particularidade. Nesse sentido, o texto de Lacan, citado acima, pede por detalhamentos.&nbsp;</p>



<p>Laurent diz que a indicação do tempo aqui é crucial. Trata-se do amanhecer, do despertar antes do dia começar: “noite sem estrelas” marcada pela temporalidade de um relógio cor néon que marca a passagem do tempo e, sobretudo, a&nbsp; insistência pulsional, aquilo que não cessa. O observador (o próprio Lacan) está imerso neste espaço-tempo.</p>



<h5 class="wp-block-heading">De Baltimore para o Rio de Janeiro</h5>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="680" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-1024x680.jpg" alt="" class="wp-image-762" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-1024x680.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-300x199.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-768x510.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-1536x1020.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/DENILSON-outra-2048x1360.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">&#8220;Lagoa do Boqueirão antes da Lapa&#8221;, de Denilson Baniwa: desmontagem da história em uma imagem</figcaption></figure>



<p>A exposição <em>Passeio Público</em> traz um “inventário de ausências” a partir do qual uma “lista de desaparecimentos ganha corpo”, escrevem as curadoras Carolina Rodrigues, Daniela Name e Paula de Oliveira Camargo (<a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/" data-type="link" data-id="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/">leia o texto de apresentação da mostra clicando aqui</a>). O que se encobriu com o aterro da Lagoa do Boqueirão? Em <em>Lagoa do Boqueirão antes da Lapa</em>, o artista Denilson Baniwa desfaz, tal como o arqueólogo de Freud, as camadas de aterramentos, desmontando a história em uma única imagem, criada por ele como resposta à violência colonial. O artista parece antecipar, como Freud indicou, um retorno disso que se recobriu com terra: o retorno do recalcado, expressão freudiana para o indomesticável do inconsciente, como a água da chuva que alaga o Passeio para não deixar esquecer que lá ainda há uma lagoa pulsante.&nbsp;</p>



<p>Eloá Carvalho também sustenta em sua delicada pintura um retorno ao que não existe mais, senão como memória. Com tinta óleo, ela recria uma imagem, uma paisagem que se apagou. É silenciosa, onírica – imagem esfumaçada, que agita qualquer coisa entre o sonho e o despertar. É o amanhecer a que Lacan se refere.&nbsp;</p>



<p>No outro trabalho da artista, sob o título <em>Contradições</em>, vemos as edificações demolidas através de textos. Edificações que se tornaram um “trambolho” – expressão recolhida pela artista em sua pesquisa nos arquivos de época. ‘Trambolho’ pode ser pensado como algo de grandes dimensões, porém inútil. É desagradável, pejorativo. Mas trambolho pode alcançar o sentido de amarras, de domínio. A artista está avisada da polissemia da palavra, e recorre ao desenho/pintura (aquarela) para reescrever, letra por letra, os textos jornalísticos e literários que noticiam este processo de apagamento. Eloá soletra o apagamento.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="681" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-1024x681.jpg" alt="" class="wp-image-760" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-1024x681.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-300x200.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-768x511.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-1536x1021.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2-900x600.jpg 900w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/ELOA-detalhe-postais2.jpg 1600w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Detalhe de &#8220;Contradições&#8221;, de Eloá Carvalho: artista soletra o apagamento da região</figcaption></figure>



<p>A artista ana kemper também recorre ao texto, produzindo com fita um apagamento em um conjunto de livros que tratam, dentre outros temas, do processo de colonização. Cobrindo partes do texto, a artista interrompe o fluxo e a linearidade da escrita oficial e abre ao leitor, por esse recorte, novas narrativas, outras histórias, a dos “vencidos”, por exemplo – em termos Benjaminianos. E por que não dizer que, com esse novo texto, esculpido nas entrelinhas, a artista mostra “outra cena”, tal como Freud propôs no trabalho dos sonhos.&nbsp;</p>



<p>Mano Penalva constrói uma miniatura do passeio. Mas não uma miniatura qualquer, mimética, como um arquiteto faria. Trata-se de uma miniatura onírica, portanto poética e avessa à representação. A sua paleta é azulada e translúcida, o que faz pensar que é possível ver a lagoa mesmo soterrada. Seu <em>Bibelot</em> não só redesenha a geometria do Passeio sob o traço de Mestre Valentim, como se utiliza de certa ironia. É irônico porque é francês: a encomenda do vice-rei (Luís de Vasconcelos) a Mestre Valentim era a de um “jardim francês retilíneo, de alamedas bem ordenadas” (de acordo com a curadora Paula de Oliveira Camargo &#8211; <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/sonhos-de-um-passeio/" data-type="link" data-id="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/sonhos-de-um-passeio/">leia clicando aqui</a>). É irônico porque evoca delicadeza na peça de vidro, para comunicar a brutalidade da invasão colonial. Continua irônico porque ressoa, aponta e desliza, ao nível do galicismo, ao termo <em>souvenir</em>:&nbsp; esse objeto que faz referência ao que se quer como recordação, mas também como ‘lembrança’ – resistência ao esquecimento daquilo que sempre retorna, querendo ou não.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="681" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-1024x681.jpg" alt="" class="wp-image-759" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-1024x681.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-300x200.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-768x511.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-1536x1021.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira-900x600.jpg 900w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MANO-mesa-inteira.jpg 1600w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">&#8220;Bibelot&#8221;, de Mano Penalva: ironia com o jardim francês sonhado pelo vice-rei Luis de Vasconcelos</figcaption></figure>



<p>Passamos pela coleção de várias obras, um conjunto extenso de pesquisas e trabalhos desses artistas que compõem a exposição: ana kemper, André Vargas, Mariana Maia, Bárbara Copque, Diambe da Silva, Gabriel Haddad e Leonardo Bora, Gilson Plano, Ivan Grilo, Luana Aguiar, Moisés Patricio, rafael amorim, Raul Leal, Zé Carlos Garcia.&nbsp;</p>



<p>Encerro esse ensaio dedicado à exposição entendendo que há aqui um coletivo de textos, de obras e pesquisas que se debruçaram de forma decidida a escutar, cada um à sua maneira, cada artista e cada curadora à sua maneira, embora todos juntos, os ruídos do Passeio. Cada um, novamente à sua maneira, inscreveu suas pesquisas neste projeto para “lavar a roupa suja da história” – expressão contundente de Mariana Maia que nos faz lembrar de Walter Benjamin; ou para contar a história daqueles que “tinham ou não tinham direito aos sapatos” (referência ao texto de Daniela Name sobre o trabalho de Bárbara Copque &#8211; <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/eles-sao-muitos-mas-nao-podem-voar/" data-type="link" data-id="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/eles-sao-muitos-mas-nao-podem-voar/">leia clicando aqui</a>).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="788" height="1024" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-788x1024.jpg" alt="" class="wp-image-767" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-788x1024.jpg 788w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-231x300.jpg 231w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-768x998.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-1183x1536.jpg 1183w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-1577x2048.jpg 1577w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/12/MARIANA-olossa4-scaled.jpg 1971w" sizes="auto, (max-width: 788px) 100vw, 788px" /><figcaption class="wp-element-caption">Detalhe da obra de Mariana Maia, que atualiza frase de Walter Benjamin sobre a história a contrapelo</figcaption></figure>



<p>Na saída da sua conferência em Baltimore, Lacan diz: “você, que me escuta, sabe que está submerso, no próprio lugar do inconsciente. O inconsciente está em você e você está nele. Trata-se de um lugar de vida.” Acrescentaria: um lugar de vida e de disputas. Portanto, o inconsciente, hoje, é o Passeio Público entre as 15 e as 17 horas.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Lagoa, morro, mar</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/lagoa-morro-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[trio curatorial]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Nov 2023 01:35:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Memórias do Passeio]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
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<p>O Passeio Público do Rio de Janeiro foi implantado em um território que, até o final do século XVIII, fazia fronteira com o mar por um lado e com o Morro das Mangueiras pelo outro, tendo a Lagoa do Boqueirão d’Ajuda ocupando a grande área que depois seria aterrada para dar lugar ao jardim. A lagoa era a única da cidade que, naquela época, desaguava no mar, além de impedir o acesso à Zona Sul pelo caminho do Engenho D’El Rei.</p>



<p>Entendido como “um dos sítios mais imundos do pequeno burgo colonial”, o Passeio veio ocupar a faixa entre o mar e o morro sob as alegações de promover a ventilação da região e de acabar com os maus cheiros e dejetos que degradavam o ambiente. Uma epidemia de gripe e febre foi atribuída aos miasmas da lagoa, favorecendo seu aterramento.</p>



<p>Desde sua concepção, o Passeio Público narra uma história de violência contra o território. O desmonte do Morro das Mangueiras e o desaparecimento da Lagoa do Boqueirão corroboraram um discurso higienista que queria promover a elitização e a limpeza urbana com a construção de um jardim supostamente idílico, apaziguado. Mas o mar e a lagoa seguem embaixo da terra que tentou sepultá-los. Quando chove muito, a água volta, alagando a rua do Passeio e lembrando que as águas e o solo do Morro das Mangueiras não se deixaram domesticar tão facilmente.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>
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			</item>
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		<title>O jardim romântico de Glaziou</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/o-jardim-romantico-de-glaziou/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[trio curatorial]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Nov 2023 00:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Memórias do Passeio]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Passeio Público passou por sua primeira grande reforma em 1817, trazendo mudanças drásticas ao projeto de Mestre Valentim. Os pavilhões quadrangulares deram lugar a outros, octogonais. Antigos elementos escultóricos remanescentes do projeto de Valentim foram removidos ou substituídos por novos. Os muros deram lugar às grades em 1835.</p>



<p>Em 1860, o príncipe Maximiliano da Áustria veio ao Brasil e visitou o Passeio. Não suportando o cheiro, levou um lenço ao nariz, gerando uma crise&nbsp; que culminou com a contratação do paisagista francês Auguste Glaziou (1828-1906) para uma nova reforma.</p>



<p>Glaziou operou mudanças radicais, incluindo a substituição do traçado retilíneo de Valentim por alamedas curvas com grandes áreas gramadas e um relevo que permitia novos e mais surpreendentes ângulos de visão. O paisagismo incluiu a construção de cursos d’água e da ponte que alude a troncos de árvore, entre outros elementos típicos do jardim inglês, além de espécies vegetais como a figueira da Índia e a gameleira. Um grande pavilhão e um coreto foram construídos, abrigando um café-concerto.&nbsp;</p>



<p>O Passeio foi fechado para a reforma e sua reinauguração, em 7 de setembro de 1862, serviu para que dom Pedro II celebrasse os 40 anos da Independência do Brasil. O jardim voltou a sustentar um projeto político, como na sua construção.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>
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			</item>
		<item>
		<title>Pavilhões, demolições e apagamentos</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/pavilhoes-demolicoes-e-apagamentos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[trio curatorial]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Nov 2023 03:31:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Memórias do Passeio]]></category>
		<category><![CDATA[apagamentos]]></category>
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		<category><![CDATA[Pavilhões]]></category>
		<category><![CDATA[reforma urbana]]></category>
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					<description><![CDATA[Algumas histórias do Passeio Público são menos mencionadas do que outras. Entre o desmonte do Morro das Mangueiras, o aterramento da Lagoa do Boqueirão e o afastamento do Passeio em...]]></description>
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<p>Algumas histórias do Passeio Público são menos mencionadas do que outras. Entre o desmonte do Morro das Mangueiras, o aterramento da Lagoa do Boqueirão e o afastamento do Passeio em relação ao mar, antigas presenças habitavam esse lugar: o Theatro Casino e o Casino Beira-Mar. Nas imediações, o Palácio Monroe.</p>



<p>Com a demolição do morro do Castelo, uma enorme esplanada se abriu, demandando novos usos. Em 1921 iniciou-se a construção dos “Pavilhões do Passeio” para que fosse concluída a tempo para a Exposição Internacional de 1922, o que não aconteceu. Os pavilhões foram inaugurados em 1926.</p>



<p>O Theatro Casino e o Casino Beira-Mar, com fachadas idênticas nos extremos do Passeio de frente para o mar, eram ligados por uma colunata e uma pérgula. O Theatro Casino, à direita da Esplanada do Passeio, ficava mais próximo ao Palácio Monroe, mais tarde também demolido. Os pavilhões do Passeio Público tiveram uma trajetória meteórica, com muito sucesso em seu início, algumas idas e vindas, e um desfecho desolador. Em 1936, as instalações do teatro e do cassino estavam completamente abandonadas. Assim como foram construídos, rapidamente os pavilhões foram demolidos. Em 1937 a propriedade dos edifícios foi devolvida à municipalidade, que procedeu à sua demolição.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="423" height="249" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Theatro-Casino-Beira-Mar.jpg" alt="" class="wp-image-520" style="width:811px;height:auto" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Theatro-Casino-Beira-Mar.jpg 423w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Theatro-Casino-Beira-Mar-300x177.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 423px) 100vw, 423px" /><figcaption class="wp-element-caption">Os &#8220;Pavilhões do Passeio&#8221; em cartão postal de época, c. 1926, autor desconhecido</figcaption></figure></div>


<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h6 class="wp-block-heading">Silhuetas do cabeçalho integram a identidade visual de <em>Passeio Público</em>, a cargo do Estúdio Afluente (Clara Meliande, Marina Sirito e Julia Sá Earp)</h6>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Valentim, artista negro</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/valentim-artista-negro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[trio curatorial]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Nov 2023 03:18:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Memórias do Passeio]]></category>
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					<description><![CDATA[O maior artista do Rio de Janeiro no século XVIII era negro, filho de um explorador de diamantes português com uma ex-escravizada. O racismo apagou a mãe de Mestre Valentim,...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="397" height="600" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MESTRE-VALENTIM-florao-cabeca-de-anjo-igreja-de-sao-pedro-1801.jpg" alt="" class="wp-image-508" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MESTRE-VALENTIM-florao-cabeca-de-anjo-igreja-de-sao-pedro-1801.jpg 397w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MESTRE-VALENTIM-florao-cabeca-de-anjo-igreja-de-sao-pedro-1801-199x300.jpg 199w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mestre Valentim, cabeça de anjo para Igreja de São Pedro dos Clérigos, s. d.</figcaption></figure></div>


<p>O maior artista do Rio de Janeiro no século XVIII era negro, filho de um explorador de diamantes português com uma ex-escravizada. O racismo apagou a mãe de Mestre Valentim, e o que se sabe é que o escultor e arquiteto nasceu em Minas Gerais, mas foi levado pelo pai para estudar em Portugal. Aos 25 anos, fez o caminho de volta pelo Atlântico, e passou a morar no Rio.</p>



<p>Era maçom e manteve uma loja na Rua do Sabão, endereço de prestígio no centro carioca da época. Sua obra é onipresente na cidade,&nbsp; multiplicando-se por lampadários, imaginárias e retábulos de igrejas, além de importantes intervenções urbanas. Apesar disso, queixou-se a vida inteira de ser mal remunerado e morreu muito pobre.</p>



<p>Nos chafarizes das Marrecas, do Lagarto e das Saracuras, esculpiu animais que transitam entre a água e a terra, mesma característica das garças e jacarés da Fonte dos Amores, no Passeio Público. De acordo com a história oral, os bichos da Fonte são alegoria da paixão não correspondida do vice-rei por uma moradora do Boqueirão. Em 2023, a cena dos répteis espreitando as aves assombra aos que reconhecem o Passeio como território-vestígio do massacre dos tupinambás e do sequestro dos povos da diáspora africana. Mas também do triunfo de um artista que encontrou frestas para que seu talento voasse acima e além dos preconceitos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="700" height="415" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Joao-Francisco-Muzzi-detalhe-pintura-de-pintura-sobre-reforma-N-Sra-do-Parto.jpg" alt="" class="wp-image-507" style="width:810px;height:auto" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Joao-Francisco-Muzzi-detalhe-pintura-de-pintura-sobre-reforma-N-Sra-do-Parto.jpg 700w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/Joao-Francisco-Muzzi-detalhe-pintura-de-pintura-sobre-reforma-N-Sra-do-Parto-300x178.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /><figcaption class="wp-element-caption">Detalhe da pintura &#8220;Reconstrução do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto&#8221; (1789), de Francisco Muzzi, na qual Mestre Valentim, autor do projeto de reforma, é retratado como homem negro / Museus Castro Maia</figcaption></figure>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h6 class="wp-block-heading">Silhuetas do cabeçalho integram a identidade visual de&nbsp;<em>Passeio Público</em>, a cargo do Estúdio Afluente (Clara Meliande, Marina Sirito e Julia Sá Earp)</h6>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ronald Duarte</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ronald-duarte/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[trio curatorial]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Nov 2023 09:48:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artistas]]></category>
		<category><![CDATA[caminhar]]></category>
		<category><![CDATA[carne]]></category>
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					<description><![CDATA[Um andarilho, que concentra no corpo uma pluralidade imagética: Louco, Eremita, Exu, Mercúrio. Podemos ser menestréis, viajantes e mensageiros da cidade que nos habita? Um semeador, que antecipa com pétalas...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um andarilho, que concentra no corpo uma pluralidade imagética: Louco, Eremita, Exu, Mercúrio. Podemos ser menestréis, viajantes e mensageiros da cidade que nos habita?</p>



<p>Um semeador, que antecipa com pétalas de rosa a inundação vermelha que vai irrigar os desidratados amores da Fonte. É viável perfumar o passado e fertilizar o futuro?</p>



<p>Um demarcador, que pontua o caminho com os pedaços sedosos das flores, restos de corpos como as trouxas de carne que traz nos ombros. Como incorporar o horror, para então digeri-lo?</p>



<p>Com <em>Amor carnal</em>, Ronald Duarte reanima a Fonte dos Amores, a mais icônica das obras públicas de Mestre Valentim, tirando do gerúndio a configuração original: os répteis espreitando garças à beira d &#8216;água. Hoje ausentes do Passeio Público, as aves nem morriam, nem voavam.&nbsp;</p>



<p>A devoração como um ciclo de força e fragilidade, em que as supostas presas são metáfora para os pesadelos coloniais, mas também podem ser oferenda e cura. O artista lavou a pedra e o bronze com um pouco de sangue real e uma hemorragia alegórica. Esta última, quase uma enchente, segue pressionando as margens de esquecimento que a continham para submergir apoiada em memórias, individuais e coletivas, e naquilo que podemos fabular.</p>



<p>Jorra o massacre dos tupinambás; escorrem a tortura e a morte dos que foram sequestrados em outro continente; empoça o estupro de tantas mulheres. O Rio como uma cidade submersa nada idílica. A arte como a fera que fareja novas carnificinas e crimes de guerra do presente, enquanto lambe e morde o passado, tentando alterar seu gosto.</p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1064" height="1600" data-id="695" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante.jpeg" alt="" class="wp-image-695" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante.jpeg 1064w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante-200x300.jpeg 200w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante-681x1024.jpeg 681w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante-768x1155.jpeg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-caminhante-1021x1536.jpeg 1021w" sizes="auto, (max-width: 1064px) 100vw, 1064px" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1064" height="1600" data-id="697" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia.jpeg" alt="" class="wp-image-697" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia.jpeg 1064w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia-200x300.jpeg 200w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia-681x1024.jpeg 681w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia-768x1155.jpeg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-vazia-1021x1536.jpeg 1021w" sizes="auto, (max-width: 1064px) 100vw, 1064px" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1084" height="1600" data-id="698" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal.jpeg" alt="" class="wp-image-698" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal.jpeg 1084w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal-203x300.jpeg 203w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal-694x1024.jpeg 694w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal-768x1134.jpeg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-frontal-1041x1536.jpeg 1041w" sizes="auto, (max-width: 1084px) 100vw, 1084px" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1089" height="1600" data-id="699" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho.jpeg" alt="" class="wp-image-699" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho.jpeg 1089w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho-204x300.jpeg 204w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho-697x1024.jpeg 697w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho-768x1128.jpeg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-ladinho-1045x1536.jpeg 1045w" sizes="auto, (max-width: 1089px) 100vw, 1089px" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa.jpg" target="_blank" rel="prettyPhoto[gallery-mux8]"><img loading="lazy" decoding="async" width="1600" height="1051" data-id="383" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa.jpg" alt="" class="wp-image-383" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa.jpg 1600w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa-300x197.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa-1024x673.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa-768x504.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-capa-1536x1009.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></a></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani.jpg" target="_blank" rel="prettyPhoto[gallery-mux8]"><img loading="lazy" decoding="async" width="1600" height="1064" data-id="384" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani.jpg" alt="" class="wp-image-384" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani.jpg 1600w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani-300x200.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani-1024x681.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani-768x511.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani-1536x1021.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/RONALD-para-Dani-900x600.jpg 900w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px" /></a></figure>
</figure>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h6 class="wp-block-heading">Ronald Duarte</h6>



<h6 class="wp-block-heading"><strong><em>Amor carnal</em>, 2023<br>Registro da performance por Sambacine | Tiago Morena</strong></h6>



<h6 class="wp-block-heading"><strong>Integra a exposição:&nbsp;<br>vídeo, 5’, realizado pela Sambacine (com colaboração de Nádia Oliveira e Alex Moreira)</strong></h6>



<h6 class="wp-block-heading"><strong>Fotos de Tiago Morena.</strong></h6>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Eles são muitos, mas não podem voar</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/eles-sao-muitos-mas-nao-podem-voar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Name]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Nov 2023 09:45:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios curatoriais]]></category>
		<category><![CDATA[caminhar]]></category>
		<category><![CDATA[Daniela Name]]></category>
		<category><![CDATA[Exu]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
		<category><![CDATA[território]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
		<div id="fws_68ca1d39c497d"  data-column-margin="default" data-midnight="dark"  class="wpb_row vc_row-fluid vc_row top-level"  style="padding-top: 0px; padding-bottom: 0px; "><div class="row-bg-wrap" data-bg-animation="none" data-bg-animation-delay="" data-bg-overlay="false"><div class="inner-wrap row-bg-layer" ><div class="row-bg viewport-desktop"  style=""></div></div></div><div class="row_col_wrap_12 col span_12 dark left">
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		<p>Caminhar. Não exatamente como quem faz um passeio. Mas como quem aproveita encruzilhadas para embaralhar os sentidos, dando ênfase e fluxo às vias marginais. Ou como quem levanta a poeira de antigos aterros. Ou como quem arrasta o pé no chão até que se levante a faísca dos encantamentos.</p>
<p><!-- /wp:post-content --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Não me parece acaso que os três trabalhos de performance propostos para o dia da abertura e uma das obras pensadas para dentro da galeria de <em>Passeio Público</em> sejam sejam constituídos por caminhadas.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->O avançar para o fundo e para dentro do parque (o da cidade, o de cada pessoa) como um percurso multitemporal, nada cronológico, que se banha das enxurradas imaginárias e cria a possibilidade de construção de infiltração de novas memórias.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Passear não deveria ser também uma espécie de soluço na vida ordinária, um estado do qual é possível vislumbrar o extraordinário?</p>
<p>E por que <em>Passeio Público</em>? Porque o jardim projetado por Mestre Valentim é um espelho para o Brasil e seus soterramentos, mas também suas infiltrações. <span class="OYPEnA text-decoration-none text-strikethrough-none">O Rio de Janeiro é exemplar para entendermos a dizimação dos povos originários e a tortura das populações afro diaspóricas. Mas radical na resposta à violência. Esta réplica tem como alicerce a</span> <span class="OYPEnA text-decoration-none text-strikethrough-none">cultura de ressocialização dos povos marginalizados. O jardim de lazer criado para deleite da elite colonial pôde ser uma fresta para o encantamento do território.</span></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --><strong>Reconexão e oferenda</strong></p>
<p>Os trabalhos andarilhos de <em>Passeio Público </em>percorreram o parque com um procedimento de encantaria. No dia de abertura, a primeira caminhada foi <em>A fonte e a noiva</em>, trabalho de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/__trashed/">Luana Aguiar</a>, que estendeu um tapete de flores brancas para Nicolina Vaz de Assis, uma das primeiras escultoras do país, e a única artista mulher com uma obra no Passeio Público, a escultura <em>Tritão, o deus do mar, </em>criada originalmente para o aquário que funcionou no Passeio Público. Ao convidar um grupo de mulheres para tecer um caminho entre o portão principal e a obra, hoje localizada numa ilha artificial no córrego do jardim, Luana fez a sobreposição de dois campos semânticos.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Um deles acessa o universo funerário das coroas de flores e tapetes de pétalas da Semana Santa, lembrando a morte simbólica de Nicolina e a baixa visibilidade de seu trabalho artístico.  O segundo, mais ligado a outros saberes e fés, aproxima a proposta de ação coletiva de uma espécie de oferenda, por meio da qual a artista busca uma reconexão <em>com</em> Nicolina, presentificando e ressignificando sua importância.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Outros importantes trabalhos de <em>Passeio Público </em>fizeram caminhadas <em>trançáveis </em>à de Luana.  <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/gilson-plano/">Gilson Plano</a> cria uma espécie de lápide, que também pode ser um mapa. A obra em granito negro se refere ao desaparecimento de uma escultura de Mestre Valentim que ficava no verso da Fonte dos Amores: um menino, que em uma das mãos trazia um jabuti; na outra, a tal faixa, com o dizer “Sou útil ‘inda brincando”.  Seria a frase de Valentim uma ironia com o jardim que não havia sido feito para negros como ele? Ao fato de, no Rio setecentista, a atividade artística, em sua “inutilidade”, não ser considerada séria o bastante para ser respeitável? É digno de nota que os dois maiores escultores do barroco brasileiro &#8211; Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Valentim &#8211; tenham sido homens negros, a quem se entregava todo o tipo de trabalho manual. É mais notável ainda a gigantesca subversão que eles desencadeiam a partir do lugar supostamente subalterno. Constroem nosso imaginário barroco com santos samurais, que tinham como modelo as figuras humanas na porcelana vinda de Macau, também colônia portuguesa; criam  reis magos negros orientais; inventam um vocabulário para assinar com imagens as obras que deixariam para posteridade.</p>
<p>Se Gilson Plano aponta para o menino e a faixa desaparecidos, <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/eloa-carvalho/">Eloá Carvalho</a> se debruça sobre outras ausências. Numa série de aquarelas sobre papel, ela pinça frases a respeito do Passeio publicadas em textos de ficção ou na imprensa. Sem imagens (na verdade tratando o texto como uma),  a obra é mirante e miragem, através dos quais o visitante da mostra pode acessar paisagens reconhecíveis apenas do lado de dentro, onde habita a memória. A artista também reconstitui em pintura pavilhões que abrigam um complexo de diversão, projetados em 1922 e concluídos em 1926, demolidos apenas 11 anos depois de sua inauguração. A artista evidencia que uma cidade só existe no tempo como um conjunto de ruínas à deriva, e essas ruínas são como placas tectônicas movimentando-se no magma da história: quando se esbarram, podem provocar abalos e reconfigurações.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --><a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/barbara-copque/">Bárbara Copque</a>  é uma espécie de avesso que confirma a melancolia desses trabalhos sobre recalques e desaparecimentos.  Uma de suas obras acessa a memória do baobá, árvore ancestral das cosmogonias africanas, que a artista transforma em substantivo feminino. Aderida à parede da exposição como pele de lambe-lambe<em>, a </em>baobá reconhece a importância das cascas, das rugosidades como testemunhos da história de um corpo ou de um território. No outro conjunto de obras para <em>Passeio Público,</em> a artista usa a fotografia lenticular para pensar o tempo das imagens. Ao acessar essa técnica anacrônica, Barbara convoca o observador ao movimento. Refletindo sobre os quiosques e as carrocinhas de comida, a artista, também antropóloga, se conecta às comidas da história do Passeio como bori. Já ao se debruçar sobre as cadeiras de engraxates inativas, que se multiplicam em torno do parque, Barbara lembra, como dissemos no texto sobre sua obra neste catálogo, aqueles que tinham ou não tinham direito aos sapatos para passear.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<div id="attachment_740" style="width: 1121px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-740" class="wp-image-740 size-full" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/BARBARA-transicao-2.jpg" alt="" width="1111" height="844" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/BARBARA-transicao-2.jpg 1111w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/BARBARA-transicao-2-300x228.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/BARBARA-transicao-2-1024x778.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/BARBARA-transicao-2-768x583.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1111px) 100vw, 1111px" /><p id="caption-attachment-740" class="wp-caption-text">Uma das fotografias lenticulares de Bárbara Copque: tempo que inocula outro tempo</p></div>
<p><strong>Incorporação e presença</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Acompanhada pelos passos de Bárbara, chego à segunda caminhada da abertura da mostra: a versão da performance <em>Trouxa corpo</em>, de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/mariana-maia/">Mariana Maia</a>, especialmente repensada para <em>Passeio Público</em>. Com suas parceiras de ação, a artista lavou “a roupa suja da história”, como sugere a frase pintada em um dos tecidos de seu varal dedicado à orixá <em>Olossá</em>, que integra a exposição nas galerias.  Incorporando as lavadeiras da sufocada Lagoa do Boqueirão, as  mulheres negras participantes da ação desamarraram suas trouxas com imagem de outras mulheres, fazendo com que figuras como Tereza de Benguela e Marielle Franco, banhadas pela memória das águas salobras, pudessem ser corporificadas e presentificadas diante dos que assistiam.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Quando o Passeio foi aberto, mulheres com as performers de <em>Trouxa corpo</em> não eram bem-vindas nas suas aleias, por desempenharem papéis cristalizados na sociedade da cidade com a maior movimentação escravista das Américas. Os trabalhos de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/rafael-amorim/">rafael amorim</a> e <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/mano-penalva/">Mano Penalva</a> se relacionam diretamente com a interdição do Passeio para determinados corpos e/ou com sua domesticação e vigilância na época da criação do jardim.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Como lembra <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/dos-passeios-permitidos-ao-publico/">Carolina Rodrigues em seu ensaio para este catálogo</a>, a exigência dos sapatos &#8211; que Bárbara Copque evoca, e eram inviáveis para pessoas escravizadas &#8211; foi um dos subterfúgios para controlar e filtrar quem tinha acesso ao jardim de prazer construído pelo vice-rei. As estratégias de interdição e controle perduram até o século XX e, em <em>Caranguejo da Praia das Virtudes</em>, rafael amorim busca reescrever esse passado ao recombinar as experiências de Madame Satã e suas colegas de malandragem e capoeira no parque, ao qual só tinham acesso na sombra, nos horários em que os “homens de bem” poderiam se relacionar com os segmentos purgados do convívio de sua famílias na hipocrisia e na penumbra.  Ao projetar no chão da galeria uma roda com os nomes do malandro com suas companheiras, amorim reivindica a reincorporação dos apartados e a movimentação das narrativas.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Com <em>Bibelot, </em>Mano Penalva pensa diretamente na gentrificação do espaço urbano a partir das histórias do Passeio. Ao criar uma banca de camelô com pequenos bibelôs de louça transparentes no formato de patos e cisnes,  o artista se relaciona diretamente com o modelo que inspirou o Passeio e outras obras do Rio de Luís de Vasconcelos: a política pombalina para a Lisboa depois do terremoto de 1755, em que mais iluminação, mais lugares de encontros ao ar livre, obras de saneamento e um discurso sobre higiene significaram uma tentativa de ampliar o controle e a manipulação espetacular da população.  No entanto, ao imaginar as aves de louça como frágeis produtos de um tabuleiro ambulante, Mano destaca trânsitos sociais a partir de uma noção de capilaridade, troca e circulação.</p>
<div id="attachment_653" style="width: 1930px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-653" class="wp-image-653 size-full" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte.jpg 1920w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte-300x169.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte-1024x576.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte-768x432.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/SBC_1662-recorte-1536x864.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /><p id="caption-attachment-653" class="wp-caption-text">Detalhe de &#8220;Bibelot&#8221;, de Mano Penalva: fragilidade dos materiais amplia duelo entre a gentrificação e a recombinação semântica e a circulação sugeridas pela banca de camelô</p></div>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Os bichos do Passeio, tanto os reais quanto os plasmados pela febre do delírio, inspiraram trajetos percorridos na exposição. <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/raul-leal/">Raul Leal </a> investiga as espécies de animais e de plantas do jardim público na atualidade e um tempo passado específico, a reforma empreendida pelo paisagista francês Auguste Glaziou no século XIX. Além de refletir sobre o confinamento daqueles exemplares considerados “exóticos”, Leal pensa nas estratégias de reocupação do Passeio pelas espécies nativas nos momentos em que o parque é abandonado pelo poder público. Outro ponto importante no trabalho é uma espécie de ciclo alquímico que se dá pelo fogo. Se os animais representados vivos são criados em pirografia (com a chama do fogo vertida em corpo), os mortos &#8211; cobras atropeladas, macaquinhos vítimas de eletrocussão &#8211; são criados com monotipias feitas de cinzas florestas queimadas, dando às imagens e ao material que as constitui a oportunidade de uma nova existência.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->O calor que não vem do fogo, mas de uma espécie de febre, é o que parece animar os seres delirados por <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ze-carlos-garcia/">Zé Carlos Garcia</a>. As relações que o artista estabelece para obtenção da madeira para a criação de suas esculturas <em>Morre vive</em> é feita com material vindo de poda urbana, enquanto, para as demais peças incluídas em <em>Passeio Público</em>, Garcia tira partido de uma metodologia desenvolvida em sua chácara, no interior do Rio. O artista retira do terreno árvores levadas para lá por antigos proprietários com fim extrativista, como o eucalipto, e busca reequilibrar o ambiente com o replantio de espécies nativas. Com essa atitude, o artista dá a esses seres que parecem vir de sonhos e pesadelos um poder real de intervenção no cotidiano.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->O fogo promove uma transmutação histórica no trabalho de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/andre-vargas/">André Vargas</a>. No verde da bandeira brasileira e nas imagens de chamas que se aproximam, em forma e tonalidade,  do losango de nosso símbolo nacional, a bandeira criada pelo artista busca reacender uma fogueira de consciência, repensando em como, sobre os ombros de homens e mulheres, recaíram  a construção, não apenas do Passeio Público, mas de cada prédio existente no Rio de Janeiro.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->E não se trata só daquilo que é arquitetura. Há fundamentos ainda mais sólidos da desigualdade brasileira no campo do patrimônio simbólico, especificamente da língua, nos nomes que damos às coisas. No conjunto de esculturas apresentado por <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/diambe-da-silva/">Diambe da Silva</a>, as duas peças que formam <em>Amor e saudade</em> se relacionam com os textos gravados por Mestre Valentim e o vice-rei Luís de Vasconcelos nas pirâmides do Passeio (“Ao amor do público” e “À saudade do Rio”). As esculturas de cerâmica remetem diretamente ao Pão de Açúcar  e ao fato de o maior ícone da paisagem carioca aludir, assim como “Brasil”, a um processo extrativista. Se no nome do país lembra-se a brasa, mas também a madeira que era arrancada do nosso solo para viabilizar o tingimento de tecidos e a expansão têxtil, a expressão que batiza a montanha alude aos torrões gerados depois do processamento da cana, que partiam nos porões dos navios para alimentar a Europa.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<div id="attachment_741" style="width: 1034px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-741" class="size-large wp-image-741" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-1024x711.jpg" alt="" width="1024" height="711" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-1024x711.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-300x208.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-768x533.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-1536x1066.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/DIAMBE-corte-1-2048x1421.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><p id="caption-attachment-741" class="wp-caption-text">Diambe da Silva:  alusão ao Pão de Açúcar e ao extrativismo colonial na linguagem</p></div>
<p><strong>Transmutação e cura</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Caminhar para o interior do Passeio, para que do ventre das linguagens o jardim de Valentim refloresça.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Quem sabe isso possa acontecer nos vasos de cerâmica de<a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/moises-patricio/"> Moisés Patrício</a>, que imaginou um trabalho em que se caminha sobre Valentim &#8211; ou na direção dele. Ao serpentear sobre os vasos de cerâmica que aludem aos 68 anos do artista, o público é convidado a pisar com cuidado num solo onde estão os ataúdes dos antepassados, mas também a participar da colheita daquilo que Valentim nos deixou. O percurso parte de um vaso revestido de ouro, percorre dezenas de outros recipientes emborcados para baixo (cápsulas do passado e sementes do futuro), e termina com um pequeno conjunto de vasos maiores como cálices, virados para cima. Os Ibejis, orixás gêmeos e crianças, concluem uma espécie de ciclo infinito de transformação que entrega o homenageado à luz e à alegria.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<div id="attachment_742" style="width: 1034px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-742" class="size-large wp-image-742" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-1024x621.jpg" alt="" width="1024" height="621" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-1024x621.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-300x182.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-768x466.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-1536x932.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/MOISES-apenas-vasos-1-2048x1243.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><p id="caption-attachment-742" class="wp-caption-text">Moisés Patrício: caminho que reencanta e ritualiza a trajetória de Mestre Valentim</p></div>
<p>Nova alquimia. Haverá outras.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Na terceira performance apresentada na abertura da exposição, e último dos quatro trabalhos diretamente ligados ao ato de caminhar, <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ronald-duarte/">Ronald Duarte</a> convoca inúmeros arquétipos da história das imagens para o próprio corpo para capturar uma imagem que, dias depois, estaria sendo multiplicada em muitas variantes ao redor do mundo. <em>Amor carnal</em> tingiu a Fonte dos Amores de vermelho e tirou a relação entre garças e jacarés do gerúndio, sintetizando as violências do período colonial, com a dizimação dos povos  originários e a tortura de reis e rainhas sequestrados na África. Mas não somente: Ronald também vislumbra, no assombro do Passeio, um genocídio em curso, com mísseis matando crianças e mulheres em massa na Faixa de Gaza e o baixo aprendizado da humanidade com as desgraças que engendrou no passado. A partir de seu trabalho e do interesse de artistas estrangeiros, fontes foram tingidas de vermelho no Porto, em Londres e em Bruxelas, denunciando os crimes de guerra e pedindo o cessar-fogo.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Ainda é preciso, mais do que rever, <em>desver.</em> <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/sonhos-de-um-passeio/">Em seu texto para este catálogo, Paula de Oliveira Camargo</a> comenta a importância das imagens produzidas por <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/denilson-baniwa/">Denilson Baniwa</a> a partir das pinturas ovais criadas por Leandro Joaquim para os mirantes do Passeio Público.  Se, no século XVIII, Joaquim naturaliza a matança das baleias ou a existência de um aqueduto na Lapa que antes era o território tupinambá, Denilson propõe bifurcações nessa via de mão única. Traz do Japão, ilha pesqueira, a onda de Hokusai para auxiliar as jubartes em sua vingança contra os arpoadores e insere um jacaré, vivo e livre,  que parece digerir arquiteturas, portugueses e massacres enquanto nos traz um lugar existente antes do Rio, bem como as histórias que precisamos imaginar.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<div id="attachment_743" style="width: 1034px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-743" class="size-large wp-image-743" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2-1024x986.jpg" alt="" width="1024" height="986" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2-1024x986.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2-300x289.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2-768x740.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2-1536x1479.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-2.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><p id="caption-attachment-743" class="wp-caption-text">Detalhe da obra de ana kemper: velar os textos para iluminá-los</p></div>
<p>Denilson poderia caminhar ao lado de<a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ana-kemper/"> ana kemper</a>. Na contribuição para o texto sobre a artista nesse catálogo, procuro debater como ela usa a fita isolante preta para velar trechos de livros. É um véu, sepultamento, mas também uma vela, iluminação. A ocultação de determinadas partes acaba trazendo à luz os escritos que não foram cobertos e que, somados aos demais, forma um texto tecido na diversidade de escritas e infiltrado com imagens das águas do Passeio e com os cheiros vindos de pimenta rosa, jurema e colônia. A Mata Atlântica como um espectro olfativo, abraçando o corpo para convidá-lo a outras percepções.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Palavras, palavras, palavras. Não são elas minha própria caminhada?</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Começo então a preparar uma pausa nesses passos por tantos Passeios enquanto converso com dois trabalhos que aludem, direta ou indiretamente, às garças criadas por Mestre Valentim para a Fonte dos Amores, trançando a imagem das aves com a escuridão e o lusco-fusco das estrelas e das lanternas narrativas.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Com <em>Esgarçamento</em>, instalação de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/gabriel-haddad-e-leonardo-bora/">Gabriel Haddad e Leonardo Bora</a>, as três aves que faziam companhia aos jacarés, e foram exiladas do Passeio, aparecem como um espectro de lanterna mágica, que projeta sua ausência para o fundo de todo o ambiente, assim como a trama de lã, costurada em ziguezague, que tenta dar sustentação ao buraco deixado em grandes lençóis &#8211; lagos ou piscinas de mergulho azul.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->É também feita de desaparecimentos a literatura visual de <a href="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ivan-grilo/">Ivan Grilo</a>, uma odisseia cuja carta de navegação vem do céu estrelado, para onde é possível olhar enquanto se escreve. Da estranheza do Passeio à descoberta dos passeios, tudo parece ficar mais nítido sob o véu da noite (como aquilo que a fita isolante de ana kemper revela enquanto esconde).</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->É nessa noite que talvez possamos recosturar com as lãs de Bora e Haddad não apenas os espaços entre as estrelas, também o contorno de prédios, estátuas de meninos, baobás, uma lagoa, alguns sapatos, o território dos tupinambás, a liberdade.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph --></p>
<div id="attachment_744" style="width: 1034px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-744" class="size-large wp-image-744" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-1024x681.jpg" alt="" width="1024" height="681" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-1024x681.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-300x200.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-768x511.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-1536x1021.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1-900x600.jpg 900w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/HADDAD-BORA-detalhe3-1.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><p id="caption-attachment-744" class="wp-caption-text">Bora e Haddad, silhuetas e lanterna mágica: esgarçar a memória e ao mesmo tempo cerzi-la</p></div>
<p>No escuro dessa noite, pareço ouvir o farfalhar de asas e entender que a devoração do amor carnal não era a única alternativa para o encontro das garças com os jacarés. Não as vejo, mas talvez possa as ouvir gazeando, melodicamente:</p>
<p><strong>&#8220;Não temas, minha donzela, nossa sorte nessa guerra”.</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p><!-- wp:paragraph -->Para que o escuro dessa noite me ajude a fazer parte do coro, volto ao início do texto, e dou-lhe o título como quem canta. E começo a reler, retomando meus passos e minhas notas nessa história coletiva.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
<p>&nbsp;</p>
	</div>
</div>




			</div> 
		</div>
	</div> 
</div></div>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>ana kemper</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/ana-kemper/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[SysDev]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Nov 2023 09:36:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artistas]]></category>
		<category><![CDATA[ana kemper]]></category>
		<category><![CDATA[edição]]></category>
		<category><![CDATA[lacunas]]></category>
		<category><![CDATA[Lagoa do Boqueirão]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[miasmas]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
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					<description><![CDATA[De onde vinham os miasmas? Da Lagoa do Boqueirão ou do empreendimento colonial, que poluiu com seus dejetos a terra sem males dos tupinambás? Em sua proposta para Passeio Público,...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>De onde vinham os miasmas? Da Lagoa do Boqueirão ou do empreendimento colonial, que poluiu com seus dejetos a terra sem males dos tupinambás? Em sua proposta para <em>Passeio Público, </em>ana kemper procura reler as histórias de uma cidade violentada.</p>



<p>A artista reúne um conjunto de livros sobre processos de colonização, botânica e paisagem, e busca correlações entre os genocídios e o desmatamento de nossa mata nativa. Ao <em>desescrever</em> com fita isolante, acaba destacando os trechos que não foram cobertos.</p>



<p>Este gesto de <em>isolamento</em> reproduz visualmente os soluços, hesitações e apagamentos da memória. Ao <em>exilar</em> o texto coberto e <em>isolar </em>o texto que pode ser lido, kemper evidencia a edição como uma escrita e a própria história como possibilidade para um sem-número de verdades, caminhos e bifurcações.</p>



<p>Todas as narrativas estão em permanente movimento e disputa. Ao criar apagamentos visuais com a fita, a artista demonstra que a centelha para a construção de um novo discurso reside nas lacunas entre as ruínas dos anteriores.</p>



<p>kemper escolhe infiltrar esses vazios, tirando partido de distintos estados da água para instaurar uma múltipla sensorialidade. Na parede, junto aos livros,  plantas e anotações, apresenta vídeos das águas do Passeio. Abaixo desse conjunto, instala difusores que exalam para o ambiente os vapores de outros tempos. Não os dos miasmas, que enterraram a lagoa, mas o de uma combinação dos óleos essenciais de pimenta rosa (aroeira), jurema e colônia. Ao envolver imagens e palavras com os cheiros da Mata Atlântica, kemper liquefaz a história na ficção para nos dar novos circuitos de respiração.</p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="986" data-id="712" src="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1-1024x986.jpg" alt="" class="wp-image-712" srcset="https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1-1024x986.jpg 1024w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1-300x289.jpg 300w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1-768x740.jpg 768w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1-1536x1479.jpg 1536w, https://passeiopublico.teiacritica.art.br/wp-content/uploads/2023/11/ANA-GALERIA1-1.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h6 class="wp-block-heading">ana kemper<br><strong><em>CoMutação – composição 2 – entre estertores e miasmas</em>, 2023<br>Livros, fotos, folhas, sementes, projeção, cadernos, odores, raízes<br>Edição de Gabi Paschoal, edt, e sonorização de Ruben Jacobina<br>Dimensões variáveis<br>Fotos de Tiago Morena.</strong></h6>
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			</item>
		<item>
		<title>Dos Passeios permitidos ao Público</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/dos-passeios-permitidos-ao-publico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Nov 2023 09:33:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios curatoriais]]></category>
		<category><![CDATA[Carolina Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[decolonial]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
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					<description><![CDATA[Quais camadas são escondidas por um jardim que traz, em seu nome, a pretensão de um livre acesso? Será que pode ser celebrado como o primeiro parque público do Brasil?...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quais camadas são escondidas por um jardim que traz, em seu nome, a pretensão de um livre acesso? Será que pode ser celebrado como o primeiro parque público do Brasil? Se esse país tem a expertise de mascarar exclusões por meio de nomes como “público”, “popular” e “plural”, esse empreendimento aponta a via seminal dessa dinâmica em dimensões territoriais, ainda no Séc. XVIII. As modificações radicais dos projetos, as degradações por abandono e os múltiplos desaparecimentos, enquanto elementos mapeáveis e identificáveis nesse espaço são quase uma metáfora, pois se constituem como um microcosmo que representa a forma como a história de todo um país foi construída.&nbsp;</p>



<p>Nas abordagens acadêmicas do campo da arte, o Passeio Público é usado para identificar a sobreposição de um jardim francês por um inglês, estilos que são anexados neste território com a intenção de incorporar saberes de pretensões universais. Ironicamente, é justamente naqueles fatos que não foram considerados relevantes para a história oficial &#8211; ou para as análises formais e estilísticas &#8211; que se constituem os principais condutores das poéticas exploradas na exposição <em>Passeio Público</em>: a presença das sociedades tupinambá que chegaram neste território em busca da terra mítica Guajupiá, a reminiscência de uma importante lagoa que ali foi aterrada, a circulação das mulheres negras que ali trabalhavam e agenciavam táticas de vida, a negritude de Mestre Valentim e do pintor Leandro Joaquim, a identidade da única escultora mulher a compor o espaço com uma obra, a moralidade que tenta ocultar a presença da população LGBTQIA+, as vidas diminutas &#8211; fauna e flora &#8211; que são devastadas, negligenciadas e atropeladas pelas dinâmicas de uma cidade em desenvolvimento.&nbsp;</p>



<p><strong>Das disputas territoriais</strong></p>



<p>Território e disputa são termos quase indissociáveis na história da humanidade. No contexto do Rio de Janeiro, percebemos uma epítome das investidas coloniais que, entre idas e vindas no tempo, se tornam cada vez mais sofisticadas, embora nunca triunfantes. Pouco a pouco, essa terra foi mutilada e enxertada para acomodar os modos de vida alienígenas, daqueles que a invadiram e exploraram seus recursos, desestruturando outras sociabilidades que aqui se organizavam, principalmente aquelas não-brancas.</p>



<p>A cada modificação radical, vai se construindo uma cenografia imageticamente e conceitualmente deslocada desses assentamentos, como uma bela capa cheia de padrões estéticos e ornamentos que, em seu interior, esconde torturas e massacres. Atrai, assim, uma sociedade de aspirações europeias que não deseja encarar de frente as imagens, os cheiros e os sons provocados pelos atos de crueldade que sustentam suas riquezas. Podemos apontar o desmonte do Morro das Mangueiras para o aterramento da Lagoa do Boqueirão como um dos primeiros atos institucionalizados de um processo higienista realizado com o argumento da prevenção de doenças por conta da insalubridade de suas águas. O Passeio Público foi construído exatamente em cima desse aterro, como o primeiro parque público do país. Junto a isso, acontece o processo de gentrificação do espaço, com a população pobre do entorno sendo forçada a deixar suas casas para dar lugar aos nobres interessados no lazer que o jardim proporcionava.</p>



<p>Durante o processo de conclusão das obras do parque &#8211; projetado, ornamentado e, certamente, construído por mãos negras &#8211; Leandro Joaquim devolve para o espaço, entre suas pinturas ovais, uma rememoração, então recente, da Lagoa do Boqueirão. Na pintura <em>Lagoa do Boqueirão e Aqueduto da Lapa</em> os protagonistas são pessoas negras que circulam por esse território, trabalham e sofrem cenas de exploração, mas também vivem romances e momentos de lazer. Na exposição<em> Passeio Público</em>, dois artistas trabalham com esse importante elemento para revirar memórias e restituir os saberes que reverenciam e tornam possível a convivência com um corpo d’água tão excepcional, como uma lagoa que troca suas águas com o mar. Mariana Maia, em <em>Olossá</em> (2023), evoca a Orixá iorubana correspondente a essas águas. Com a proposta de <em>lavar a roupa suja da história</em>, a artista traz para o centro de sua instalação, dentro do suporte de uma bacia, justamente a figura de uma mulher negra presente na tela do pintor carregando um cesto com roupas na cabeça, reivindicando o reconhecimento da circulação e do trabalho desse grupo social neste território. Denilson Baniwa, por sua vez, cava um pouco mais fundo na cronologia linear e, em <em>Lagoa do Boqueirão antes da Lapa,</em> releva a lagoa do território tupinambá, que ainda não era vítima de acusações de insalubridade, era o berço de espécies nativas e contribuía para o estado de bem-viver que era buscado por esses povos.</p>



<p>Apontar esses pertencimentos pregressos das identidades que, em algum momento foram vetadas ou afastadas do seu usufruto do Passeio Público é uma abordagem que suspende as fronteiras entre passado, presente e futuro, uma vez que as rupturas territoriais são constantemente reelaboradas na experiência das coletividades racializadas. É devolver, também, uma historicidade que foi negada.</p>



<p><strong>Do veto ao público</strong></p>



<p>Existe uma percepção coletiva de que os processos de exclusão, na história do Brasil, se deram de forma sutil, em papéis sociais que eram estabelecidos de forma subentendida e que cada um, possivelmente, saberia qual lugar ocupar na sociedade. A verdade é que as identidades indesejadas pelo projeto de branqueamento intelectual, artístico e racial, nunca fizeram acordos de subalternidade e sempre emergiram nos espaços que se pretendiam elitizados. Nunca permitimos que a elite seguisse seu caminho em nossos ombros de forma confortável.&nbsp;</p>



<p>Com a reforma elaborada pelo do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (1828-1906), inaugurada em 1862, o parque que antes era aberto e sofria um “estado de abandono” provocado por presenças indesejadas, recebeu grades de ferro. Algumas sequer estavam prontas no dia de sua abertura, então essas lacunas foram preenchidas com tapumes de madeira. Na ocasião da reabertura do Passeio Público, o escritor Moreira de Azevedo publica uma descrição detalhada do novo empreendimento, da qual destaco o trecho autoexplicativo: “É vedada a entrada a animais daninhos de qualquer natureza, às pessoas ébrias, loucas, descalças, vestidas indecentemente e armadas, a escravos, ainda que decentemente vestidos, quando não acompanharem crianças de que sejam aias ou amas (&#8230;)&#8221;.</p>



<p>A artista Bárbara Copque, tomando como gancho “a baobá”, árvore ancestral africana do Tempo, presente no Passeio Público, traz à tona as memórias daqueles que não puderam acessar esse espaço de lazer e descanso. Em <em>ao tempo, o de engraxar</em> (2016 &#8211; 2023), nos lembra o fato de que, nesse contexto, pessoas negras eram duplamente vetadas de frequentar o espaço: ser escravizada e descalça era quase uma redundância, já que esse item da vestimenta era proibido para tais pessoas. Devemos considerar, ainda, todos os critérios subjetivos que facilmente eram aplicados a pessoas racializadas, como a loucura, a embriaguez e a falta de decência de suas vestimentas. Embora a racialidade não esteja expressa diretamente, é ela que define os vetos.</p>



<p>O parque sinalizado como público pode ser encarado, então, como um órgão regulador, um instrumento da domesticação de corpos e um fragmento de um projeto eugenista, onde apenas seria incorporada uma pequena mostra de uma sociedade desejada para o futuro do país.&nbsp;</p>



<p>Mesmo no Séc. XX, temos situações como a elencada por rafael amorim na instalação <em>Caranguejo da Praia das Virtudes </em>(2023), que traz parte dos momentos vividos nesse espaço por Madame Satã, identificada como transformista, capoeirista e malandra, proibida de frequentar o jardim durante o dia com suas amigas, tendo sua presença permitida apenas no horário noturno. Em <em>Passeio Público</em>, o artista ficcionaliza um parque que monumentaliza essa identidade, recebe Madame Satã com suas amigas em uma roda e permite a troca de afetos em plena luz do dia.</p>



<p>Falamos, na contemporaneidade, de um outro contexto, onde não há proibições expressas para a entrada no Passeio Público, mas ainda há a vigilância e abordagem a pessoas consideradas “suspeitas” pelos padrões de raça e classe do Estado, embora sejam elas, as pessoas que não são desejadas circulando pela cidade, as que ali encontram algum refúgio.</p>



<p><strong>Do monumento à vida</strong></p>



<p>Concluo com aquilo que, enquanto narrativa curatorial, é o princípio de tudo, a nossa chegada à exposição. Em <em>Tributo à vida e obra de Mestre Valentim da Fonseca e Silva</em>, 2023, Moisés Patrício devolve a monumentalidade às dimensões de uma trajetória que não foram dignificadas pela história oficial. Se historicamente é considerado irrelevante o fato de Mestre Valentim ser um homem negro, menos ainda se reconhecem os diversos outros passos de um sujeito que teve outras vivências que não aquelas a serviço da consolidação de uma visualidade europeia na cidade do Rio de Janeiro. O ocultamento de uma trajetória tem o objetivo, também, de velar a autoria e a subversão em suas obras que, ora reverenciam um território ancestral eternizando vidas nativas, ora reivindicam as possibilidades do brincar para aqueles que só podem viver se forem úteis, vetados das oportunidades de lazer.</p>



<p>Convidando-nos a percorrer esse caminho, Moisés elenca, na sinuosidade dos vasos de barro, cada ano vivido por esse indivíduo, nos instigando a imaginar quais lembranças, afetos, tristezas, alegrias e conquistas estavam presentes nos detalhes que não foram documentados. A história escondida foi virada, depositada no chão da galeria, não pode ser movida sem se espalhar pelo espaço.</p>



<p>Esta exposição não evita o conflito, que é tão intrínseco a esse eixo conceitual, mas reivindica a reelaboração de histórias, memórias e territórios a partir da coexistência. Aqui, são encontrados múltiplos elementos, fragmentos que não necessariamente se encaixam, um acúmulo de perspectivas, de olhares e de conexões. É na pluralidade de pessoas, de fabulações, vozes e imaginações que podemos recuperar as camadas mais escondidas pelos fracassados projetos de simplificação das existências nesta terra.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sonhos de um passeio</title>
		<link>https://passeiopublico.teiacritica.art.br/sonhos-de-um-passeio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Oliveira Camargo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Nov 2023 09:32:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios curatoriais]]></category>
		<category><![CDATA[Passeio Público]]></category>
		<category><![CDATA[Paula de Oliveira Camargo]]></category>
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					<description><![CDATA[Imagine um lugar onde o mar da baía chega. Onde há uma lagoa. Onde há morros com vegetação nativa da Mata Atlântica. Imagine que nesse lugar habitam plantas, animais, e...]]></description>
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<p>Imagine um lugar onde o mar da baía chega. Onde há uma lagoa. Onde há morros com vegetação nativa da Mata Atlântica. Imagine que nesse lugar habitam plantas, animais, e outras tantas formas de vida. Imagine agora que ali bate sol quase o ano todo, e que as abundantes chuvas fazem proliferar seres não tão desejáveis assim. Que a lagoa guarda humores e odores nem tão agradáveis assim. Miasmas. Que a maresia deixa tudo pegajoso, úmido, salgado. E que, afinal, a vegetação é um tanto escura demais, com folhas grandes demais, e guarda bichos perigosos demais. Grandes, como jacarés. Minúsculos, como mosquitos, larvas.</p>



<p>Há muito não entrava no Passeio Público. Como muita gente, passava, desviava, corria por fora, olhava para dentro pelas grades, mas não entrava. A última vez que estive do lado de dentro acho que fazia uns quatro anos, mesmo estando em frente pelo menos três vezes por semana. Houve uma pandemia, é fato. Ainda assim, as idas e vindas ao Centro nunca incluíam o Passeio, e por motivos diversos. Um deles, a percepção de insegurança. Sendo mulher, de classe média, andar sozinha pelo Passeio me parecia desafiador, um lugar que guarda perigos. Sei que essa percepção subjetiva não é só minha. Já ouvi inúmeras vezes relatos semelhantes, especialmente de outras mulheres. Há também a incerteza. Os portões do Passeio não estão todos abertos sempre. Não é fácil identificar, ao acessar um portão, se será possível sair por outro. Desse modo, com apenas um ponto de acesso, adentrar o jardim não se configura como uma possibilidade de travessia de um lugar a outro, mas como uma intenção de permanência, ou de passeio, em seu interior. É curioso que seja assim.</p>



<p>O próprio uso da palavra “passeio” encerra uma charada semântica: o verbo “passear” pressupõe prazer. Ninguém diz que “vai dar um passeio” ou que “vai passear” para ir ao cartório, por exemplo, ou a um funeral. Então esse jardim, construído com a intenção de ser um local de agradáveis caminhadas e piqueniques para a aristocracia carioca do final do século XVIII, parece distante de uma ideia pacificada de “passeio”.</p>



<p>Primeiro jardim urbano do Brasil, o Passeio Público tem uma existência indelevelmente associada à violência. O Centro do Rio, de maneira geral, é todo assim. A cidade se constrói com e a partir de violências. Morros desmontados, lagoas aterradas, mar afastado. Uma constituição geográfica que muda ao longo dos séculos, mudanças que vêm acompanhadas de um desejo de ser outra coisa. Uma cidade, outra cidade, diferente daquilo que é. O Rio se forja então como uma metrópole em constante necessidade de tradução. Entre indígenas, portugues_s e african_s em conflito e amalgamad_s, misturam-se as línguas, as origens, as histórias e esquecimentos de cada povo. O patriarca lusitano conforma a cidade a seu gosto, mas não apaga – não completamente – suas origens, que sempre vêm à tona como a água aterrada. Como uma criança que, com avós indígenas, mãe negra e pai português, o Rio é forçado a evocar cada um de seus pedaços num quebra-cabeça cujas peças foram perdidas. Para lembrar, é preciso antes esquecer.&nbsp;</p>



<p>Performar um outro ser-cidade parecia ser o desejo mais urgente das elites do Rio de Janeiro após a transferência da capital de Salvador, em 1763. Esse desejo se manifestou de diversas maneiras. Na região central, por desmontes e aterros. Apenas nos séculos XVII e XVIII, com a expansão da cidade a partir do Morro do Castelo, cinco lagoas foram aterradas com terra vinda do Morro das Mangueiras, material de pedreiras ou mesmo lixo: Pavuna, Desterro, Santo Antônio, Boqueirão d’Ajuda e Sentinela. Já no século XX, os morros do Senado e do Castelo são também desmontados, e sua terra é usada para aterrar a região portuária e para a criação da Avenida Beira Mar.</p>



<p>O Passeio Público se encontra exatamente onde era a Lagoa do Boqueirão. A terra criada sobre a água não deixa dúvida. A cada grande chuva nos meses mais quentes do ano, a lagoa volta. A Rua do Passeio, submersa em águas marrons e certamente muito mais fétidas do que as que foram aterradas, torna-se rio e transporta fezes, urina, ratos, baratas e outros bichos. Quem ousa (ou precisa) desbravar esse cenário passa com água pela altura dos joelhos, às vezes até mais. Fecha-se a entrada e a saída do metrô. Depois é a limpeza da lama, o desentupimento dos bueiros, a limpeza das portarias, do piso subsolo do metrô, manutenção de escadas rolantes, muita reclamação. Eu observo apenas, um riso no canto da boca. Me atraso para o próximo compromisso. Busco ajustar a agenda. Olá, Boqueirão d’Ajuda. Bem-vinda ao teu lugar de direito!</p>



<p>Outro aguaceiro acontece, esse dentro de meus olhos. Agradeço por ter gravado na minha retina o Boqueirão antes da Lapa, apenas a mata e a água, e também um jacaré.&nbsp; Queria saber, Boqueirão, teu nome tupinambá. Não encontrei nos livros de história. O que sei vem de depois, de um Rio de vice-reis, de pessoas escravizadas e povos dizimados. Um Rio que se queria, vejam só, aristocrata, em pleno clima tropical. Mas como usar tanta roupa, tanto ornamento e garbo, mandando nosso ouro para fora e tentando (com algum sucesso, é verdade) domesticar essa mata?</p>



<p>Para isso, Valentim, o mestre negro treinado em Portugal, veio a serviço do todo-poderoso vice-rei, Luís de Vasconcellos, que queria um jardim francês em pleno Rio de Janeiro. Desçam os morros, acabemos com esse brejo, esse charco imundo que, cheio de miasmas, traz doença e risco à fina flor de nossa aristocracia. Imagine só se é possível andar por tamanha imundície, com o cheiro podre que vem do fundo dessa lama.</p>



<p>Vem o Mestre Valentim, contra toda a corte branca, fazer então seu projeto. Um jardim francês retilíneo, de alamedas bem ordenadas, e bichos que vêm do mangue. Longas pirâmides apontam ao céu dizendo “à saudade do Rio”, “ao amor do público”, o pequeno menino atrás da fonte é “útil inda brincando”. Jacarés, garças, tartarugas, seres longe da nobreza, povoam de bronze a lagoa fantasma que um dia foi sua morada. Restritos à Fonte dos Amores, os jacarés espreitam as garças que, imóveis, alçaram voo. Duas delas hoje estão no Jardim Botânico, na zona sul carioca, numa redoma de vidro e muito bem conservadas. Com os pés acorrentados ao chão, não caem de lado e não voam, mas estão engaioladas para que possamos vê-las.</p>



<p>Nos últimos meses voltei a frequentar o Passeio Público por conta da exposição. O traçado romântico da reforma de Auguste Glaziou, inaugurada em 1862, leva a caminhos sinuosos, não se pode ver o fim. A natureza é imitada em falsos galhos-guarda-corpo de pontes, pedras cuidadosamente construídas e bancos esculpidos como se madeira fossem. Não gosto de usar a palavra “abandonado”, embora seja recorrente, nem pretendo “revitalizar” nada. Sei que aí há vida, e muita.</p>



<p>O Passeio é pouco visto, um lugar bom para segredos, sonecas e sim espreitas. Hoje a Fonte dos Amores de fonte só guarda o nome. Nela não há mais água. Os jacarés seguem em tocaia, banguelas. _s human_s que a frequentam fazem dela banheiro, banco de praça ou motel. Quem sabe os amantes da fonte possam sob um céu de inverno, quando escurece cedo, ver também as estrelas.</p>



<p>Vejo que meu receio de adentrar o jardim era um tanto infundado. Nesse espaço central, e ao mesmo tempo à margem, cada qual cuida de si. A vigilância é constante. Descansam, dormem, conversam. Passeiam até, veja só.</p>



<p>Eu poderia contar essa história, e além dela diversas, mas para isso temos livros e extensa documentação. Quero falar de outra coisa, que é o que move este ensaio.</p>



<p>A exposição <em>Passeio Público</em> é feita apenas de trabalhos inéditos. Do momento em que soubemos que havíamos sido contemplad_s pelo edital da Caixa Cultural até sua inauguração foram dois meses e meio, intervalo em que foram criadas todas as obras da mostra. Dezessete trabalhos, produzidos por dezoito artistas, constituem um novo arquivo de memórias para o Passeio Público. Pensar a partir do Passeio, de suas histórias e estórias, foi o ponto de partida para uma jornada extraordinária. _s artistas convidad_s se lançaram também a voos, buscaram imagens e referências para um Passeio de muitas possibilidades.</p>



<p>Trouxeram as baobás e o tempo, memórias de Madame Satã, espécies vegetais nativas. Miasmas, narrados em livros escritos com o esquecimento e o apagamento de parte de suas palavras. Amores impossíveis, perda de dentes, bichos pouco nobres mas quase sempre em risco, uma liteira em chamas. Paisagem e perigo, brincadeira e morte. Bichos inventados em madeira de poda. Garças remendadas para poderem existir. O sangue, tanto sangue num mundo em guerra. Pavilhões demolidos e disputas narrativas, uma única escultora em um jardim de homens, a orixá das águas salobras das lagoas que levam ao mar, camelôs de aves cintilantes. Os passos de Valentim percorridos numa serpente sinuosa que marca o chão da estéril galeria. A paisagem devolvida, a vingança das marés e das baleias. E o voo. Ah, o voo! Sim, é possível voar, recriar imaginários e trazer novas memórias para um Passeio em disputa.</p>



<p>Novos passados se avizinham, futuros se distanciam. Jacarés enfim devoram a carne, as garças encontram céus estrelados. Sonhando passados e futuros, o presente nos ajuda a mobilizar essas imagens, seja por palavras soltas, frases emolduradas, o vermelho-sangue na boca dos jacarés, pétalas de rosas pelo chão, desaparecimentos e tantas outras imprevisões do caminho.</p>



<p>Em um projeto como esse, que nos desafiou, numa trajetória meteórica, a repensar os caminhos do Passeio Público, é preciso entender o&nbsp; acaso como método. Lembrar o espaço que conversa com a gente, a montagem que nos diz onde cada obra deve ficar, os trabalhos que apontam seus lugares nas paredes e pisos das galerias. No modo de fazer. Tudo isso só existe uma vez. E essa única vez produz novas possibilidades de futuro. Gera modos alternativos e quem sabe contracoloniais de se ver, de se pensar, e de se olhar para o Passeio Público, que nunca mais será o mesmo a partir dos arquivos criados para esta exposição. Reivindicamos novos passados.&nbsp;</p>



<p>Ainda mais água desce, pois vejo que, nesta mostra, driblamos o impossível. Criamos novas visões antigas, enredamos novas imagens, tramamos novas costuras. As obras aqui presentes tratam de inexistências, de desaparecimentos, de apagamentos, e também de existências possíveis, talvez não regenerativas, mas geradoras de novos registros para o Passeio Público. Camadas de memória para se pensar o Passeio no futuro, inscrevendo na história mais um capítulo deste primeiro parque urbano do Brasil.</p>



<p>Esta mostra foi pensada também como uma aproximação. Um convite a percorrer o Passeio, a ler os livros de história, a conhecer tupinambás, vice-reis e Suzanas, a saber de Valentim, da reforma de Glaziou. A transformar o Passeio num verdadeiro passeio. Público, ao público, em público.</p>



<p>***</p>
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